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O futuro de Flávio Bolsonaro nos EUA poderá mudar se os democratas derrotarem Trump no Congresso

A possível vitória dos democratas nas eleições legislativas dos Estados Unidos pode trazer consequências políticas para a permanência de Flávio Bolsonaro no país, mas não significa que o senador brasileiro será deportado automaticamente. Caso o partido de oposição ao presidente Donald Trump conquiste a maioria no Congresso, parlamentares poderão investigar as circunstâncias da entrada de Flávio em território americano e cobrar explicações do governo sobre o tratamento concedido a ele e à família. Entretanto, a decisão sobre vistos, permanência e eventual retirada de estrangeiros dos Estados Unidos pertence ao Poder Executivo, e não diretamente aos deputados e senadores.

O assunto ganhou repercussão depois que Flávio deixou o Brasil e chegou aos Estados Unidos, em meio a questionamentos sobre as circunstâncias de sua viagem e as decisões judiciais relacionadas ao caso. Nas redes sociais, brasileiros passaram a pedir que políticos democratas pressionassem pela deportação do senador caso o partido conquistasse o controle do Legislativo americano. A hashtag #DeportTheBolsonaros também ganhou destaque nas discussões, enquanto especialistas ouvidos pelo g1 explicaram quais medidas poderiam ser adotadas em um eventual cenário de maioria democrata

As eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, estão previstas para 3 de novembro de 2026 e renovam todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, além de aproximadamente um terço do Senado americano. Atualmente, os republicanos controlam as duas Casas, o que favorece a agenda legislativa de Trump e reduz a capacidade de fiscalização exercida pela oposição. Se os democratas conquistarem a maioria, poderão ampliar o controle parlamentar sobre o governo, abrir investigações e convocar integrantes da administração para prestar esclarecimentos, inclusive sobre a situação do senador brasileiro.

Congresso americano não pode determinar a deportação de Flávio Bolsonaro

A principal resposta para a pergunta sobre o futuro de Flávio nos Estados Unidos é que uma vitória democrata no Congresso não daria aos parlamentares autoridade direta para deportá-lo. Segundo Roberto Uebel, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos e professor de Relações Internacionais da ESPM, a retirada de um estrangeiro do território americano não está entre as atribuições do Poder Legislativo. As decisões migratórias são conduzidas por órgãos do Executivo, especialmente o Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, e o Departamento de Segurança Interna, conhecido pela sigla DHS.

O professor Vitelio Brustolin, da Universidade Federal Fluminense (UFF), também explicou que é necessário diferenciar a revogação de um visto, a deportação e a expulsão de um estrangeiro. A revogação do visto, por exemplo, não determina necessariamente que a pessoa deixe imediatamente o território americano, pois a situação migratória depende de outros procedimentos e circunstâncias legais. Já a deportação envolve um processo próprio, no qual as autoridades competentes precisam analisar os fundamentos para determinar a retirada de alguém do país.

Portanto, mesmo que os democratas assumam o controle do Congresso, não poderão simplesmente aprovar uma decisão parlamentar ordenando que Flávio deixe os Estados Unidos. O que poderiam fazer seria utilizar os instrumentos de fiscalização disponíveis para questionar o governo Trump sobre a entrada e a permanência do senador. Uma eventual investigação poderia aumentar a pressão política sobre a administração republicana, mas não substituiria os procedimentos conduzidos pelas autoridades responsáveis pela política migratória americana.

Democratas poderiam investigar a entrada do senador e pressionar Marco Rubio

Uma das possibilidades mencionadas pelos especialistas é a abertura de uma investigação parlamentar para esclarecer se integrantes do governo Trump ofereceram algum tipo de favorecimento a Flávio Bolsonaro e seus familiares. Os congressistas poderiam questionar as circunstâncias da concessão dos vistos, a análise dos antecedentes do senador e a eventual participação de autoridades americanas na organização de sua chegada ao país. Também poderiam cobrar informações sobre a existência de tratamento excepcional e sobre os critérios utilizados para autorizar sua entrada e permanência.

De acordo com Vitelio Brustolin, uma investigação parlamentar poderia ser iniciada pela Câmara dos Representantes, sem que fosse necessário conquistar simultaneamente a maioria no Senado. Entre as medidas possíveis estaria a convocação de Marco Rubio para prestar esclarecimentos sobre a atuação do Departamento de Estado no episódio. Roberto Uebel também apontou que a fiscalização poderia alcançar outros integrantes da administração americana, caso surgissem questionamentos sobre a participação de autoridades na situação envolvendo o senador brasileiro.

Entretanto, esse tipo de investigação enfrentaria limitações, principalmente porque informações migratórias e documentos relacionados à concessão de vistos podem estar protegidos por regras de confidencialidade. Além disso, o governo poderia invocar prerrogativas do Poder Executivo para contestar a divulgação de determinadas comunicações internas, provocando disputas jurídicas sobre o acesso dos parlamentares aos registros. Mesmo assim, uma apuração poderia produzir desgaste político para Trump e obrigar sua administração a apresentar justificativas sobre a condução do caso.

Permanência de Flávio nos EUA não deve ser prioridade dos democratas

Apesar da possibilidade de investigações e cobranças públicas, os especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que a situação de Flávio Bolsonaro dificilmente estará entre as principais prioridades dos democratas se o partido conquistar a maioria no Congresso. A oposição deverá concentrar boa parte de seus esforços em assuntos internos dos Estados Unidos, especialmente economia, custo de vida, propostas orçamentárias e fiscalização das decisões de Trump. Também haverá preocupação com a preparação política para a eleição presidencial americana de 2028, que deve influenciar as estratégias dos partidos durante a próxima legislatura.

Tomaz Paoliello, coordenador do mestrado em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais da PUC-SP, considera que uma maioria democrata poderia utilizar o poder de fiscalização para pressionar instituições do governo, mas avalia que o caso de Flávio não possui importância suficiente para ocupar posição central na agenda parlamentar. Roberto Uebel, por sua vez, apontou que os democratas poderiam priorizar um processo de impeachment contra Trump, embora a finalidade e a condução de uma eventual iniciativa dependessem das decisões políticas do partido. Assim, a situação do senador brasileiro poderia aparecer em investigações específicas, sem necessariamente se transformar em um dos principais assuntos do Congresso.

O cenário mais concreto, portanto, é que uma eventual vitória democrata aumentaria a fiscalização sobre a administração Trump e poderia gerar questionamentos oficiais sobre a entrada e a permanência de Flávio nos Estados Unidos. Isso não significa que o senador será deportado, porque a decisão migratória continua sob responsabilidade do Executivo e depende das normas aplicáveis ao caso, enquanto o Congresso pode investigar e exercer pressão política. A permanência de Flávio no país dependerá, assim, das decisões das autoridades americanas competentes, e não simplesmente do resultado das eleições legislativas.